Um “atropelamento” que pode ter lhe salvado a vida. Este é o resumo da história quase cinematográfica, mas real, que o árbitro Tony Corrente, 60, vem vivendo nesta temporada 2011-12 da NFL e que você vai conhecer abaixo.
Era a primeira rodada da temporada regular da NFL em 2011, após um longo lockout. O Baltimore Ravens visitava o rival Pittsburgh Steelers e nada mais justo que um árbitro experiente e veterano, como Tony Corrente, para mediar o embate.
Finalzinho do terceiro quarto, Ravens vencendo por 32 a 7, na casa do adversário, ânimos exaltados. Cenário perfeito para mais um dos inúmeros “desentendimentos” que marcam os confrontos entre essas duas equipes. E foi o que aconteceu.
Como a ‘contenda’ ficou mais séria, todos os árbitros entraram em campo para apartar os ‘brigões’ (veja o vídeo abaixo). Porém, após ter tentado intervir, sem sucesso, entre um bolo de jogadores, dentre os quais Matt Birk e Michael Oher (Ravens) e Ryan Mundy e LaMarr Woodley (Steelers) estavam envolvidos, o árbitro Tony Corrente acabou se desequilibrando e caindo de costas no campo. Mesmo machucado, o árbitro seguiu na partida até o fim da mesma.
Após o término do confronto, na sala onde ficam os árbitros, com dor nas costas, atrás da cabeça e nas nádegas, Tony resolveu tomar um analgésico. No vestiário dos árbitros havia Tylenol e Motrin. Ele lembrou de um amigo de profissão, que o havia dito que Motrin era melhor para a dor e tomou 800 miligramas de remédio; um anti-inflamatório com atividades analgésicas. Auto-medicado, o árbitro voou de volta para sua casa, na Califórnia.
.
Em casa, Tony percebeu que estava cuspindo sangue. E lá foi ele se auto-medicar novamente. Com Motrin, de novo.
Após ter apitado Chiefs x Lions, na semana 2, Corrente voltou pra casa e, na manhã do dia seguinte, percebeu que seu travesseiro estava ensangüentado justamente na local próximo a onde ele teria colocado sua boca na noite anterior.
Finalmente, ele resolveu procurar ajuda clínica, com sua médica particular Susan Sleep. A Dra. Susan o apresentou a um especialista em problemas no nariz, ouvido e garganta, que submeteu Corrente a alguns testes, entre eles a inserção de uma espécie de “sonda” com uma câmera na ponta dentro de seu nariz, para verificar o problema.
Ao ver as imagens geradas pela câmera no equipamento, o árbitro perguntou:
– O que é isso, doutor?
– “Isso” é câncer, senhor.
Tony ficou absolutamente chocado. Era um câncer de língua e garganta.
Após mais alguns testes com um segundo especialista, no Anderson Cancer Center, em Houston, Tony descobriu que tinha duas escolhas: a remoção cirúrgica do tumor – que carregava alguns riscos significativos para o seu futuro, como lesões na fala e garganta – ou reduzir e eliminar o tumor através da tradicional quimioterapia e radioterapia. Ele escolheu a segunda opção.
A quimioterapia começou depois que Tony Corrente apitou Bears x Buccaneers, no estádio de Wembley, em Londres. De lá, seriam sete longas semanas de tratamento.
“Todos os médicos que eu vi olhavam para mim e falavam o quão sortudo eu havia sido”, disse Corrente.
.
Hein? Sortudo de ser atropelado por “rinocerontes” e descobrir um câncer?!?
.
Ele próprio explica: “ter sido ‘atropelado’ e machucado no jogo em Pittsburgh pode ter salvado a minha vida. Foi quando eu comecei a tomar Motrin, que descobri que meu sangue estava fino. Isso fez com que eu ‘quebrasse’ meus vasos sanguíneos quando tossia. Obviamente (num caso desses), você tem que descobrir porque isso está acontecendo. Se eu não tivesse feito nada ou tivesse tomado Tylenol (que não tem atividades anticoagulantes), provavelmente eu não tomaria conhecimento da doença tão cedo – quando eu descobrisse, talvez eu precisasse de um cirurgia grande (para remoção) e quem sabe que chances (de vida) eu teria.”
Mesmo durante a quimioterapia, Corrente continuou a apitar por um tempo. Mas, chegou um ponto onde o tratamento o enfraqueceu de uma tal maneira que ele teve se ausentar de seu trabalho por três semanas.
Cinco dias depois do fim do tratamento, porém, Tony Corrente já estava pronto para voltar ao serviço, dizendo-se “100%”. Ele ainda voltou a tempo de fazer as duas últimas semanas da temporada regular: Vikings x Redskins (semana 16) e Ravens x Bengals (semana 17).
Neste último jogo, inclusive, era a primeira vez que Corrente reencontrava o time de Baltimore desde o ocorrido, no começo da temporada. Mágoa? Nem um pouco. Apenas gratidão.
Antes da partida, o árbitro foi até John Harbaugh, treinador do Ravens, e pediu, se não fosse muito incômodo, que ele pudesse chamar os jogadores Matt Birk e Michael Oher, dois dos envolvidos na briga do começo do ano, onde Corrente se machucou. E ele apenas disse: “Eu só queria dizer que vocês podem realmente ter salvado a minha vida”.
“Eu podia perceber, na expressão deles, que eles estavam chocados como o que estavam ouvindo: ‘Por que diabos esse árbitro maluco está agradecendo por termos derrubado ele de bunda no chão? Isso não faz sentido!’, deviam pensar”, disse Corrente.
Após esta partida, ele ganhou um “presente”: foi escalado para um jogo nos playoffs, neste sábado passado, onde apitou Detroit Lions x New Orleans Saints e declarou ter se sentido muito bem, sem dor e cheio de energia durante a partida.
Porém, no domingo foi bem diferente. Ele sentiu muita dor na garganta e em todo o corpo.
É como se seu corpo tivesse usado todas as reservas existentes, para que Tony estivesse 100% naquele que seria seu último jogo nesta temporada, para em seguida desabar em exaustão e fraqueza.
Mas, a batalha continua e ele é um guerreiro. Corrente começará uma nova bateria de radioterapia para lutar contra o tumor. Durante o tratamento, ele não deve conseguir falar ou sentir gosto de qualquer alimento. Será muito difícil engolir qualquer coisa.
O futuro de Tony Corrente é incerto. Os dois primeiros meses de tratamento foram bem, mas nem os médicos conseguem assegurar qualquer expectativa otimista para ele. Treinador aposentado de baseball no colegial, Tony resumiu sua atual situação de forma bem humorada: “Nós anotamos algumas corridas, mas estamos apenas na 6ª entrada. Os adversários ainda tem alguns bons rebatedores para vir ao bastão”.
Ele ouviu, de treinadores, oficiais da liga, jogadores, funcionários e fãs da NFL em geral, milhares de desejos de saúde e de boa recuperação. E isto o emocionou bastante: “Você ouve por aí ‘NFL – No Fun League’ ou ‘NFL – Not For Long’, quando na verdade, para mim, NFL significa National Family League. Eu aprendi que meu copo não está meio cheio. Ele esteve completamente cheio durante toda minha vida e estará para sempre assim.”
Tony Corrente está confiante e ansioso para a próxima temporada. E está assim por um único motivo: ter a chance de encontrar Ryan Mundy e LaMarr Woodley, do Pittsburgh Steelers. São os outros dois “brigões” que deram início a toda essa história de superação.
Ele mal pode esperar para lhes contar o modo ‘maluco’ como eles talvez tenham ajudado a salvar a sua vida.


11 de janeiro de 2012 em 08:16
Ygor, essa história é impressionante!!!
No sábado enquanto assistíamos à vitória dos Saints contra os Lions, eu e meu irmão comentamos sobre a doença de Tony Corrente, até porque é o árbitro que consideramos ser o melhor da NFL.
Espero que ele ainda tenha condições de comandar a arbitragem de muitos jogos, inclusive um dos Steelers, para que ele tenha a oportunidade de agradecer LaMarr Woodley e Ryan Mundy!!!!
Por falar em superação, ontem assisti “Invincible”, a história de como Vince Papale foi parar no time de especialistas dos Eagles nos anos 70. Mais um bom filme, assim como “We are Marshall” e “Express – The history of Ernie Davis”, que tem o futebol americano como tema de fundo. Todos esses são altamente recomendandos!!!
Grande abraço,
Marcelo
12 de janeiro de 2012 em 21:14
o michael oher é o cara do sonho impossível né?
12 de janeiro de 2012 em 21:53
ele mesmo
13 de janeiro de 2012 em 09:09
O nome em português é esse? Nada a ver com “The blind side”…. hehehehehe. O filme é bom também!!! Mas esses que eu falei são melhores!!!
17 de janeiro de 2012 em 19:16
Muito boa historia , ygor. muito bem escrita. parabéns !
18 de janeiro de 2012 em 01:14
Épico, Jogadores da NFL salvando vidas, essa frase marcou – “Você ouve por aí ‘NFL – No Fun League’ ou ‘NFL – Not For Long’, quando na verdade, para mim, NFL significa National Family League. Eu aprendi que meu copo não está meio cheio. Ele esteve completamente cheio durante toda minha vida e estará para sempre assim.”